sábado, 21 de novembro de 2009
OK, Paranoid
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Rebundantes
Cecília Meireles
Déjà'vu, Djavans, pressentimentos, apréssentimentos.
Escrever tem me causado uma sensação de repetição, de redundância contínua. Embora as pessoas novas não me achem clichê - afinal, é a primeira vez que me ouvem -, eu sei que eu já disse isso ou aquilo algumas vezes antes, a novidade em mim não existe para mim.
O mesmo tem acontecido quando vou escrever meus textos, com exceção dos acadêmicos, que normalmente são paráfrases de outros e não de mim mesma.
Cansa se repetir, mas, às vezes, quando menos se espera, pode-se repetir para alguém tão novo que a impressão é de que você é quem está novo, como uma paráfrase muito bem enfeitada, como palavras bonitas de poetas famosos.
Já disse também que vejo uma semelhança incrível entre química, literatura e gente, quando se pensa que as combinações infindas podem resultar em produtos novíssimos e inesperados. Sempre.
O que resta é ficar feliz por ser mais redundante que rebundante, como tantos por aí. Entenda-se o que quiser.
Discurso fragmentado é a velha moda do verão.
A lógica temporal é uma convenção babaca, mas da qual todos nós somos escravos. Às vezes. Noutras, a gente esquece dela.
Há palavras fermentando. Há palavras em mim. Mas há muito mais de mim nas palavras.
Sobretudo. Sobre tudo. Sobrar é bom, ruim é faltar.
Costura-se retórica. Onde?
As palavras são dedo-duras. Hard Rock Words. The word gets around.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
(Des)necessária
Mogli, o menino lobo
acessório Datação: 1534
adjetivo
1 que se junta ao principal; suplementar, adicional, anexo
2 Derivação: por extensão de sentido.
que tem importância menor; secundário, dispensável
substantivo masculino
3 o que se junta ao principal, sem lhe ser essencial; detalhe, complemento, achega
4 peça ou objeto que serve de adorno ou complemento (p.ex., do vestuário, como cinto, bolsa etc.)
accessório; ver antonímia de necessário
Do Houaiss (adaptado).
Os acessórios também podem ser usados para adornar móveis. Como, por exemplo, um vaso ou um porta-retrato na estante. Com ou sem eles, a estante continua servindo para o que foi feita.
Quando estudamos sintaxe, aprendemos que há os termos integrantes e acessórios da oração. Os primeiros não podem faltar; os últimos podem existir ou não.
Os cintos - e como eu sinto! - passam de moda, e são deixados no fundo do closet. As bolsas, idem.
Ser ou sentir-se acessório é o maior pavor da que vos fala: a saudade é a contra-partida do esquecimento. Uma vez que não sentem a sua falta, você pode ser parte do grupo dos acessórios: o contrário do necessário; desnecessário.
O ostracismo é cruel. O esquecimento é muito pior do que o ódio. É pior do que se entrevar.
sábado, 31 de outubro de 2009
S.E.L. (Síndrome do Ex-Loser)
Ele era uma criança ou adolescente fora dos padrões físicos europeus. Era tímido, gostava de atividades intelectuais e não era o melhor atacante do time de futebol. Usava aparelho e as roupas nunca lhe caíam bem (ou não sabia escolhê-las).
Na puberdade, as meninas nunca faziam festa para ele. Nas festinhas, ficava no canto do salão com seu grupo de amigos conversando sobre a campanha de RPG.
Eis que algum evento inusitado ocorre em sua vida e ele se dá conta de que o que quer mesmo é fazer parte da galera descolada que faz sucesso na cidade. Quer frequentar os shows de forró e ser disputado para dançar. Quer poder escolher entre as garotas disponíveis daquele grupo que conheceu na viagem, e não ficar com a única que sobrou.
A idade também ajuda: agora sua voz não oscila mais. Seus ombros estão mais largos e o remédio para espinhas finalmente fez efeito. Ele se matricula numa academia e começa a prestar atenção nas roupas que a "galera" descolada gosta de usar. Adicione isso ao fato de ter conseguido passar logo no vestibular, em curso badalado. Pronto! Ele já é um Ex-Loser!
A próxima etapa é sair pelo mundo como um rolo compressor, sem se importar com os problemas e sentimentos alheios. Punindo todos aqueles que não têm nada com o fato de sua vida, até então, ter sido um depósito de frustrações.
O problema dessa categoria de gente é o mesmo dos adultos em relação às crianças: eles esquecem que já foram pequenos um dia. Assim, passam a recriminar as atitudes infantis sem ao menos dar uma paradinha para refletir. Há quem diga que quando nos tornamos adultos é que ficamos idiotas. Eu digo o mesmo com os Ex-Losers.
Clá há tempos me indica um livro de Martin Page chamado "Como me tornei estúpido". Tenho a leve impressão de que ficarei viciada quando começar a ler, por isso não o fiz ainda. A linguística me consome.
Tornar-se estúpido é justo o procedimento de um Ex-Loser. Ele abandona tudo o que tinha de bom - a maneira peculiar de ver o mundo, os gostos peculiares, os amigos estranhos e engraçados - e passa a fazer parte de um mundo massificado, banal e desprezível. Ele passa a ser mais um.
Todo mundo quer ser incluído, se identificar. O problema é que alguns não conhecem limites para isso, tomando uma decisão quase sempre sem volta.
É engraçado como às vezes é fácil reconhecer o tipo Ex-Loser. É quase possível enxergar nele os vestígios de alguém realmente diferente e decente, mas ele não deixa a coisa transparecer por muito tempo, enterrando o seu ex-eu com uma boa camada de idiotice.
De acordo com dados experienciais e empíricos, eu daria o seguinte conselho para alguém que conhece gente assim e tem esperanças de resgatar o ser humano decente contido ali:
Se somente você enxerga uma pessoa e todos os outros não a veem, há somente duas hipóteses. Primeira: você tem esquizofrenia. Segunda: a pessoa não existe. (A segunda não exclui a primeira, ratifica).
Aprendi em psicologia que a realidade deve ser atestada por mais de uma testemunha para ser reconhecida oficialmente como tal.
Se só você consegue ver as valiosas e remanescentes qualidades especiais contidas naquele Ex-Loser, talvez elas não estejam mesmo mais lá. Talvez elas estejam apenas em você. Um original Loser, eterno e incurável (que bom).
E lembre-se: só Jesus salva. Não queira ser Jesus, ele só levou revés.
Beijos.
Aprés
Eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Ela olha de lado, a cara amassada, os poros molhados, olhos dilatados.
Ele ri.
- Meu Deus, eu te amo tanto que parece que vou morrer. Estou sufocada.
Ele ri, dá um beijo em sua testa e dorme. Tranquilamente.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Ás às as
Teu sentimento:
irmão de mármores
e amigo de ventos
E lá se perdeu
a borboleta
recém-nascida do meu casulo
E me perguntaram:
- Já não sabes mais voar?
Minhas asas
perdidas por lá
Passeiam sílfides
livres de mim
e eu estática
era tática do teu frio
duro, exato, vazio
Prossegue a procura
no escuro da tua caverna
escura
Cabra-cega
Onde não há Ariádnes
por onde Pandora espalhou
seu labirinto de males
Onde ficou perdido o detido
o batido das minhas asas esquecido
as asas que ganhei de presente de ti
as minhas asas
as que nunca mais eu vi.
sábado, 24 de outubro de 2009
Doçuras ou travessuras?
Resistir a uma fatia da torta preferida ou a uma tacinha do sorvete no congelador parece algo cada vez mais impraticável. E aquele pudim da vitrine do restaurante da universidade? (Ao menos a esse ainda tenho resistido).
Essa semana, na fila do caixa do restaurante, ao lado da vitrine dos doces, me lembraram de um texto que eu havia escrito, falando do pudim. Sobre o quanto era difícil a gente olhar aquele doce tão lindo, brilhante, e ter que dizer "não, obrigada"; mesmo sabendo que ele é delicioso e está totalmente disponível para o consumo. Eu escrevi aquilo para falar dos pudins, mas antes disso eu queria falar sobre o quanto é difícil tomar a decisão de não fazer algo que se quer, de que se gosta e que faz momentaneamente bem, como é o prazer de degustar um doce bom.
Os doces são assim como o amor. Eles trazem em sua essência essa ambiguidade angustiante da convivência entre prazer e nocividade. Assim como o amor, deve-se aprender a consumir doces na frequência e quantidade certas.
Mas, afinal, quando isso finalmente acontece?
Moody's vibes
- Ela parece confusa sobre se você e a mãe dela ainda estão juntos ou não.
- E não estamos todos?
- Ah, bem, é uma pena. Eu adoraria te arranjar alguém, um dia desses.
- Ah, eu agradeço a intenção, mas isso é uma causa perdida.
- Ah, é? Por quê?
- Bem, é meio que a minha punição, sabe? Jantar, bebidas, Deus sabe mais o quê. Mesmo não estando muito interessado, acabo dizendo o quão bonita ela é. Porque é a verdade. Todas as mulheres são, de uma forma ou de outra. Sempre tem alguma coisa em cada uma de vocês. Um sorriso, uma curva, um segredo. Vocês, senhoritas, são de fato as criaturas mais incríveis. O trabalho da minha vida. Mas aí chega a manhã seguinte. A ressaca. E o pensamento de que eu não estou tão disponível quanto eu achava que estava na noite anterior. E aí ela se vai. E aí eu sou assombrado por outro caminho não percorrido.
- Nossa, estou impressionada. Você parou com a palhaçada por um momento e falou algo de verdade.
- Eu faço isso, às vezes. Mas nunca tem como saber quando. Tem que prestar atenção.
Sabe... o melhor presente que o nosso discurso pode ganhar é o discurso de outrem.
Em algumas línguas, os substantivos fazem declinações de acordo com o tempo e com a sintaxe.
Só uma língua dessas poderia traduzir hoje o que eu estou sentindo: Ai, que saudade de mim no passado.
domingo, 18 de outubro de 2009
Se escreveu, não remeta
A ausência é um estar em mim.
(C.D.A.)
Era uma vez uma garota que sentia saudades. Ela escrevia cartas para as pessoas, contava o seu dia, como tinha sido o último fim de semana e também falava as últimas notícias de sua vida. Pedia opinião, fazia piadinhas, lembrava momentos e até ria. Até parecia que a outra pessoa estava lá, perto dela. Depois, não remetia. E assim tudo se resolvia.
Os sentimentos de cada um são somente problema dele mesmo. Resolva os seus sozinho e faça o mínimo de barulho possível. E, se possível, quando sair, apague a luz.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Professora
Como tenho mania de dicionários e como minha orientadora já publicou pesquisa sobre os gêneros nos verbetes de dicionários, está aqui o significado de professor e professora, segundo o Houaiss (que se lê "Uaiss" e não "Rauaiss"):
professor
substantivo masculino
1 aquele que professa uma crença, uma religião
2 aquele que ensina, ministra aulas (em escola, colégio, universidade, curso ou particularmente); mestre
Exs.: p. de matemática
p. de violão
p. adjunto
3 Derivação: sentido figurado.
indivíduo muito versado ou perito em (alguma coisa)
n adjetivo
4 que professa; profitente
Então, assim deve ser excelente ser professor. Então, estou feliz.
professora
substantivo feminino
1 mulher que ensina ou exerce o professorado
2 Regionalismo: Nordeste do Brasil. Uso: informal.
prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual
Como professora e nordestina, agradeço novamente a vocês e aos dicionários.
Que vida feliz.

